Sabedoria e Prudencia
AS 95 tese de Martin Lutero by: Fernando Costa
1. Ao dizer: "Fazei penitência", etc. Mt 4.17 o nosso
senhor e mestre Jesus cristo quis que toda a vida dos fiéis fosse penitência.
2. Esta penitência não pode ser entendida como penitência
sacramental (isto é, da confissão e satisfação celebrada pelo ministério dos
sacerdotes).
3. No entanto, ela não se refere apenas a uma penitência
interior, sim, a penitência interior seria nula se, externamente, não
produzisse toda sorte de mortificação da carne.
4. Por consequência a pena perdura enquanto persiste o ódio de
si mesmo (isto é a verdadeira penitência interior), ou seja, até a entrada do
reino dos céus.
5. O papa não quer nem pode dispensar de quaisquer penas senão
daquelas que impôs por decisão própria ou dos cânones.
6. O papa não tem o poder de perdoar culpa a não ser declarando
ou confirmando que ela foi perdoada por Deus ou, certamente, perdoados os casos
que lhe são reservados. Se ele deixasse de observar essas limitações a culpa
permaneceria.
7. Deus não perdoa a culpa de qualquer pessoa sem, ao mesmo
tempo, sujeitá-la em tudo humilhada, ao sacerdote, seu vigário.
8. Os cânones penitenciais são impostos apenas aos vivos,
segundo os mesmos cânones, nada deve ser imposto aos moribundos.
9. Por isso, o Espírito Santo nos beneficia através do papa
quando este, em seus decretos, sempre exclui a circunstância da morte e da
necessidade.
10. Agem mal e sem conhecimento de causa aqueles sacerdotes que
reservam aos moribundos penitências canônicas para o purgatório.
11. Essa cizânia de transformar a pena canônica em pena do
purgatório parece ter sido semeada enquanto os bispos certamente dormiam.
12. Antigamente se impunham as penas canônicas não depois mas
antes da absolvição, como verificação da verdadeira contrição.
13. Através da morte os moribundos pagam tudo e já estão mortos
para as leis canônicas, tendo, por direito, isenção das mesmas.
14. Saúde ou amor imperfeito no moribundo necessariamente traz
consigo grande temor e tanto mais quanto menor for o amor.
15. Este temor e horror por si só já bastam (para não falar de
outras coisas) para produzir a pena do purgatório, uma vez que estão próximos
do horror do desespero.
16. Inferno, purgatório e céu parecem diferir da mesma forma que
o desespero, o semi desespero e a segurança.
17. Parece desnecessário, para as almas no purgatório, que o
horror diminua na medida em que cresce o amor.
18. Parece não ter sido provado, nem por meio de argumentos
racionais nem da Escritura, que elas se encontrem fora do estado de mérito ou
de crescimento no amor.
19. Também parece não ter sido provado que as almas no
purgatório estejam certas de sua bem-aventurança, ao menos não todas, mesmo que
nós, de nossa parte, tenhamos plena certeza disso.
20. Portanto, por remissão plena de todas as penas, o papa não
entende simplesmente todas, mas somente aquelas que ele mesmo impôs.
21. Erram, portanto, os pregadores de indulgências que afirmam
que a pessoa é absolvida de toda pena e salva pelas indulgências do papa.
22. Com efeito, ele não dispensa as almas no purgatório de uma
única pena que, segundo os cânones, elas deveriam ter pago nesta vida.
23. Se é que se pode dar algum perdão de todas as penas a
alguém, ele, certamente, só é dado aos mais perfeitos, isto é, pouquíssimos.
24. Por isso a maior parte do povo está sendo necessariamente
ludibriada por essa magnífica e indistinta promessa de absolvição da pena.
25. O mesmo poder que o papa tem sobre o purgatório de modo
geral, qualquer bispo e cura têm em sua diocese e paróquia em particular.
26. O papa faz muito bem ao dar remissão às almas não pelo poder
das chaves (que ele não tem), mas por meio de intercessão.
27. Pregam doutrina humana os que dizem que, tão logo tilintar a
moeda lançada na caixa, a alma sairá voando (do purgatório para o céu).
28. Certo é que, ao tilintar a moeda na caixa, pode aumentar o
lucro e a cobiça, a intercessão da Igreja, porém, depende apenas da vontade de
Deus.
29. E quem é que sabe se todas as almas no purgatório querem ser
resgatadas, como na história contada a respeito de São Severino e São Pascoal?
30. Ninguém tem certeza da veracidade de sua contrição muito
menos de haver conseguido plena remissão.
31. Tão raro como quem é penitente de verdade é quem adquire
autenticamente as indulgências, ou seja, é raríssimo.
32. Serão condenados em eternidade, juntamente com seus mestres,
aqueles que se julgam seguros de sua salvação através de carta de indulgência.
33. Deve-se ter muita cautela com aqueles que dizem serem as
indulgências do papa aquela inestimável dádiva de Deus através da qual a pessoa
é reconciliada com Ele.
34. Pois aquelas graças das indulgências se referem somente às
penas de satisfação sacramental determinadas por seres humanos.
35. Os que ensinam que a contrição não é necessária para obter
redenção ou indulgência estão pregando doutrinas incompatíveis com o cristão.
36. Qualquer cristão que está verdadeiramente contrito tem
remissão plena tanto da pena como da culpa, que são suas dívidas, mesmo sem uma
carta de indulgência.
37. Qualquer cristão verdadeiro, vivo ou morto, participa de
todos os benefícios de Cristo e da Igreja, que são dons de Deus, mesmo sem
carta de indulgência.
38. Contudo, o perdão distribuído pelo papa não deve ser
desprezado, pois, como disse — é uma declaração da remissão divina.
39. Até mesmo para os mais doutos teólogos é dificílimo exaltar
simultaneamente perante o povo a liberalidade de indulgências e a verdadeira
contrição.
40. A verdadeira contrição procura e ama as penas ao passo que a
abundância das indulgências as afrouxa e faz odiá-las ou pelo menos dá ocasião
para tanto.
41. Deve-se pregar com muita cautela sobre as indulgências
apostólicas para que o povo não as julgue erroneamente como preferíveis às
demais boas obras do amor.
42. Deve-se ensinar aos cristãos que não é pensamento do papa
que a compra de indulgências possa, de alguma forma, ser comparada com as obras
de misericórdia.
43. Deve-se ensinar aos cristãos que, dando ao pobre ou
emprestando ao necessitado, procedem melhor do que se comprassem indulgências.
44. Ocorre que-através da obra de amor cresce o amor e a pessoa
se torna melhor, ao passo que com as indulgências ela não se torna melhor, mas
apenas mais livre da pena.
45. Deve-se ensinar aos cristãos que quem vê um carente e o
negligencia para gastar com indulgências obtém para si não as indulgências do
papa, mas a ira de Deus.
46. Deve-se ensinar aos cristãos que, se não tiverem bens em
abundância, devem conservar o que é necessário para sua casa e de forma alguma
desperdiçar dinheiro com indulgência.
47. Deve-se ensinar aos cristãos que a compra de indulgências é
livre e não constitui obrigação.
48. Deve ensinar-se aos cristãos que, ao conceder perdões, o
papa tem mais desejo (assim como tem mais necessidade) de oração devota em seu
favor do que do dinheiro que se está pronto a pagar.
49. Deve-se ensinar aos cristãos que as indulgências do papa são
úteis se não depositam sua confiança nelas, porém, extremamente prejudiciais se
perdem o temor de Deus por causa delas.
50. Deve-se ensinar aos cristãos que, se o papa soubesse das
exações dos pregadores de indulgências, preferiria reduzir a cinzas a Basílica
de São Pedro a edificá-la com a pele, a carne e os ossos de suas ovelhas.
51. Deve-se ensinar aos cristãos que o papa estaria disposto
—como é seu dever — a dar do seu dinheiro àqueles muitos de quem alguns
pregadores de indulgências extorquem ardilosamente o dinheiro, mesmo que para
isto fosse necessário vender a Basílica de São Pedro.
52. Vã é a confiança na salvação por meio de cartas de
indulgências mesmo que o comissário ou até mesmo o próprio papa desse sua alma
como garantia pelas mesmas.
53. São inimigos de Cristo e do Papa aqueles que, por causa da
pregação de indulgências, fazem calar por inteiro a palavra de Deus nas demais
igrejas.
54. Ofende-se a palavra de Deus quando, em um mesmo sermão, se
dedica tanto ou mais tempo ás indulgências do que a ela.
55. A atitude do Papa necessariamente é: se as indulgências (que
são o menos importante) são celebradas com um toque de sino, uma procissão e
uma cerimônia, o Evangelho (que é o mais importante) deve ser anunciado com uma
centena de sinos, procissões e cerimônias.
56. Os tesouros da Igreja, a partir dos quais o papa
concede as indulgências, não são suficientemente mencionados nem conhecidos
entre o povo de Cristo.
57. É evidente que eles, certamente, não são de natureza
temporal, visto que muitos pregadores não os distribuem tão facilmente, mas
apenas os ajuntam.
58. Eles tampouco são os méritos de Cristo e dos santos, pois
estes sempre operam, sem o papa, a graça do ser humano interior e a cruz, a
morte e o inferno do ser humano exterior.
59. São Lourenço disse que os pobres da Igreja são os tesouros
da mesma empregando, no entanto, a palavra como era usada em sua época.
60. É sem temeridade que dizemos que as chaves da Igreja, que
foram proporcionadas pelo mérito de Cristo, constituem estes tesouros.
61. Pois está claro que, para a remissão das penas e dos casos
especiais, o poder do papa por si só é suficiente.
62. O verdadeiro tesouro da Igreja é o santíssimo Evangelho da
glória e da graça de Deus.
63. Mas este tesouro é certamente o mais odiado, pois faz com
que os primeiros sejam os últimos.
64. Em contrapartida, o tesouro das indulgências é certamente o
mais benquisto, pois faz dos últimos os primeiros.
65. Portanto, os tesouros do Evangelho são as redes com que
outrora se pescavam homens possuidores de riquezas.
66. Os tesouros das indulgências, por sua vez, são as redes com
que hoje se pesca a riqueza dos homens.
67. As indulgências apregoadas pelos seus vendedores como as
maiores graças realmente podem ser entendidas como tais, na medida em que dão
boa renda.
68. Entretanto, na verdade, elas são as graças mais ínfimas em
comparação com a graça de Deus e a piedade da cruz.
69. Os bispos e curas têm a obrigação de admitir com toda
a reverência os comissários de indulgências apostólicas.
70. Têm, porém, a obrigação ainda maior de observar com os dois
olhos e atentar com ambos os ouvidos para que esses comissários não preguem os
seus próprios sonhos em lugar do que lhes foi incumbidos pelo papa.
71. Seja excomungado e amaldiçoado quem falar contra a verdade
das indulgências apostólicas.
72. Seja bendito, porém, quem ficar alerta contra a
devassidão e licenciosidade das palavras de um pregador de indulgências.
73. Assim como o papa, com razão, fulmina aqueles que, de
qualquer forma, procuram defraudar o comércio de indulgências,
74. Muito mais deseja fulminar aqueles que, a pretexto das
indulgências, procuram fraudar a santa caridade e verdade.
75. A opinião de que as indulgências papais são tão eficazes a
ponto de poderem absolver um homem mesmo que tivesse violentado a mãe de Deus,
caso isso fosse possível, é loucura.
76. Afirmamos, pelo contrário, que as indulgências papais não
podem anular sequer o menor dos pecados venais no que se refere à sua culpa.
77. A afirmação de que nem mesmo São Pedro, caso fosse o papa
atualmente, poderia conceder maiores graças é blasfêmia contra São Pedro e o
Papa.
78. Dizemos contra isto que qualquer papa, mesmo São Pedro, tem
maiores graças que essas, a saber, o Evangelho, as virtudes, as graças da
administração "ou da cura", etc., como está escrito em I Co 12.
79. É blasfêmia dizer que a cruz com as armas do papa,
insignemente erguida, equivale à cruz de Cristo.
80. Terão que prestar contas os bispos, curas e teólogos que
permitem que semelhantes sermões sejam difundidos entre o povo.
81. Essa licenciosa pregação de indulgências faz com que não
seja fácil nem para os homens doutos defender a dignidade do papa contra
calúnias ou questões, sem dúvidas argutas dos leigos.
82. Por exemplo, por que o papa não esvazia o purgatório por
causa do santíssimo amor e da extrema necessidade das almas, o que seria a mais
justa de todas as causas, se redime um número infinito de almas por causa do
funestíssimo dinheiro para a construção da basílica — que é uma causa tão
insignificante?
83. Do mesmo modo, por que se mantêm as exéquias e os
aniversários dos falecidos e por que ele não restitui ou permite que se recebam
de volta as doações efetuadas em favor deles, visto que já não é justo orar
pelos redimidos?
84. Que nova piedade de Deus e do papa é essa que, por causa do
dinheiro, permite ao ímpio e inimigo redimir uma alma piedosa e amiga de Deus,
mas não a redime por causa da necessidade da mesma alma piedosa e dileta por
amor gratuito?
85. Do mesmo modo, por que os cânones penitenciais — de fato e
por desuso já há muito revogados e mortos — ainda assim são redimidos com
dinheiro, pela concessão de indulgências, como se ainda estivessem em pleno
vigor?
86. Por que o papa, cuja fortuna hoje é maior do que a dos ricos
mais crassos, não constrói com seu próprio dinheiro ao menos esta uma basílica
de São Pedro, ao invés de fazê-lo com o dinheiro dos pobres fiéis?
87. O que é que o papa perdoa e concede àqueles que, pela
contrição perfeita, têm direito à plena remissão e participação?
88. Que beneficio maior se poderia proporcionar à Igreja do que
se o papa, assim como agora o faz uma vez, da mesma forma concedesse essas
remissões e participações cem vezes ao dia a qualquer dos fiéis?
89. Já que, com as indulgências, o papa procura mais a salvação
das almas do que o dinheiro, por que suspende as cartas e indulgências, outrora
já concedidas, se são igualmente eficazes?
90. Reprimir esses argumentos muito perspicazes dos leigos
somente pela força, sem refutá-los apresentando razões, significa expor a
Igreja e o papa à zombaria dos inimigos e fazer os cristãos infelizes.
91. Se, portanto, as indulgências fossem pregadas em conformidade
com o espírito e a opinião do papa, todas essas objeções poderiam ser
facilmente respondidas e nem mesmo teriam surgido.
92. Portanto, fora com todos esses profetas que dizem ao povo de
Cristo "Paz, paz!" sem que haja paz!
93. Que prosperem todos os profetas que dizem ao povo de Cristo
"Cruz! Cruz!" sem que haja cruz!
94. Devem-se exortar os cristãos a que se esforcem por seguir a
Cristo, seu cabeça, através das penas, da morte e do inferno.
95. E que confiem entrar no céu antes passando por muitas
tribulações do que por meio da confiança da paz.
- o -
Após diversos acontecimentos, em junho de 1518 foi aberto um
processo por parte da Igreja Romana contra Lutero, a partir da publicação das
suas 95 TESES. Alegava-se, com o exame do processo, que ele incorria em
heresia. Depois disso, em agosto de 1518, o processo foi alterado para heresia
notória.
Finalmente, em junho de 1520 reapareceu a ameaça no escrito
"Exsurge Domini" e, em janeiro de 1521, a bula "Decet Romanum
Pontificem" excomungou Lutero. Devido a esses acontecimentos, Lutero foi
exilado no Castelo de Wartburg, em Eisenach, onde permaneceu por cerca de um
ano.
Durante
esse período de retiro forçado, Lutero trabalhou na sua tradução da Bíblia para
o alemão, da qual foi impresso o Novo Testamento, em setembro de 1522.

"E todo aquele que vive, e crê em Mim, nunca morrerá. Crês tu isto?" (João 11:26) JESUS
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